O Conceito antropológico de cultura passa necessariamente pelo dilema da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana. Há um dilema que permanece como tema central de numerosas polêmicas e que aponta para a preocupação há muito presente, como a diversidade existente entre os diferentes povos.
Desde a Antiguidade, foram comuns as tentativas de explicar as diferenças de comportamento entre os homens, a partir das variações dos ambientes físicos. No entanto, logo os estudiosos concluíram que as diferenças de comportamento entre os homens não poderiam ser explicadas através das diversidades somatológicas ou mesológicas. Tanto o determinismo geográfico quanto o determinismo biológico foram incapazes de resolver o dilema, pois o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado chamado de endoculturação, ou seja, um menino e uma menina agem diferentemente não em função de seus hormônios, mas em decorrência de uma educação diferenciada.
Da mesma forma, as diferenças entre os homens não podem ser explicadas em termos das limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper em suas próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas dominou os ares; sem guelras ou membranas próprias conquistou os mares. Tudo isto porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura.
Apesar da dificuldade que os antropólogos enfrentam para definir a cultura, não se discute a sua realidade. A cultura se desenvolveu a partir da possibilidade da comunicação oral e a capacidade de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico. Isto significa afirmar que tudo o que o homem faz, aprendeu com os seus semelhantes, não decorre de imposições originadas fora da cultura.
A comunicação oral torna-se então um processo vital da cultural: a linguagem é um produto da cultura, mas ao mesmo tempo não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação oral.
A cultura desenvolveu-se simultaneamente com o próprio equipamento biológico humano e é, por isso mesmo, compreendida como uma das características da espécie, ao lado do bipedismo e de um adequado volume cerebral. Uma vez parte da estrutura humana, a cultura define a vida, e o faz não através das pressões de ordem material, mas de acordo com um sistema simbólico definido, que nunca é o único possível. A cultura, portanto, constitui a utilidade, serve de lente através da qual o homem vê o mundo e interfere na satisfação das necessidades fisiológicas básicas. Embora nenhum indivíduo conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário ter um conhecimento mínimo para operar dentro do mesmo. Conhecimento mínimo este que deve ser compartilhado por todos os componentes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mesmos.
A cultura estrutura todo um sistema de orientação que tem uma lógica própria. Já foi o tempo em que se admitia existir sistemas culturais lógicos e sistemas culturais pré-lógicos. A coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence. Todas as sociedades humanas dispõem de um sistema de classificação para o mundo natural que constitui categorias diversificadas e com características próprias.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
Diante dessas vastas possibilidades de investigação antropológica é necessário uma divisão de seus campos para um melhor entendimento, para que não nos percamos. Seus objetos são bem definidos e possuem interesses teóricos próprios:
Antropologia Física ou Biológica: estuda a natureza física do homem, na tentativa de conhecer suas origens e evolução, sua estrutura anatômica, seus processos fisiológicos e as diferentes características raciais das populações humanas, antigas e modernas. Estas se subdividem em:
Antropologia Cultural: busca no homem e nas sociedades o entendimento de todos os componentes culturais, entendido como estudo dos símbolos e das representações que orientam o ser humano em sua vida diária.
A origem etmológica do termo antopologia vem do termo anthropos, que significa homem e logia ou ciência. Logo, a antropologia é a ciência do homem. Porém, não é apenas o objeto material homem, visto que muitas ciências também apropriam deste saber, mas a característica de estudar o homem como um todo, incluindo fatores biológicos e culturais, o que lhe dá um carater mais geral e ao mesmo tempo um carater mais específico, pois se torna impossível estudar o homem em toda sua dimensão (MELLO, 2007: 34-35). Dentro deste campo mais amplo se encontra diversas subdivisões, como a antropologia física, e a antropologia cultural, como veremos mais adiante.
Desde que a cultura é aprendida, observamos que as pessoas que vivem em diferentes lugares, possuem diferentes culturas. É a cultura que faz com que a criança nascida no Brasil seja brasileira, e a criança nascida em Portugal seja portuguesa. Assim, existem trocas culturais entre os indivíduos que contrapõe a todo o momento as culturas entre os povos já estabelecidos.
Notamos então, que o conceito de antropologia cultural é um conjunto complexo de conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes e várias outros hábitos que o homem adquire durante a vida (MELLO, 2007:40-43).
SEU CAMPO DE ESTUDO ABRANGE:
TRABALHO DE CAMPO
Vimos que dentre os diversos campos de interesse da antropologia, o folclore tem sua importância, seja ele urbano ou rural. As festas populares poderiam também estar aqui incluídas, além de danças, músicas, brincadeiras, etc.
Observe a região em que você vive. Quais são os grupos folclóricos existentes? Quais são as festas populares? Acredito serem poucos, como também acredito que em tempos remotos a existência destas festas e desta cultura popular terem existido em número muito maior do que na atualidade. Estas festas e estas culturas modificaram ou foram criados outros tipos e formas? Algumas permaneceram e outras surgiram? Dê exemplos.
Em sua opinião qual a causa de seu desaparecimento? E qual a causa do aparecimento de novas manifestações culturais? Quais são os fatores em jogo?
Vamos ao fórum discutir essas questões?
Espero por seus comentários!
Ciência Social: Sociologia, História, Pscologia, Geografia, Economia, Ciência Política, Ciência Biológica ou natural: Biologia, Genética, Anatomia, Fisiologia, Embriologia, Medicina, Zoologia, Geologia, Botânica, Química e Física
Vimos na Unidade I que no início do século XIX o estudo da Antropologia era feito numa perspectiva holística (teoria de que existe uma tendência à interação dos elementos do universo e em especial dos seres vivos) em relação ao homem, na medida em que o seu estudo incidia no homem enquanto ser biológico, os seus comportamentos, “usos e costumes”. Desde esse primeiro momento até agora, várias são as influências geográficas, políticas, sociais e científicas a contribuir para a complexidade desse homem.
Inicialmente o estudo da antropologia surge associado às sociedades exóticas, distantes e ditas primitivas. As grandes potências mundiais procuravam formas de compreender as populações nativas das suas colônias para melhor conseguir relacionar com elas. Já durante o século XX muitos estados europeus, serviram da antropologia ou da etnografia para procurar a essência e as tradições que melhor legitimariam a existência dos estados-nação, sendo esta tendência também conhecida por folclore.
O folclore é uma manifestação de origem popular transmitido pelos costumes e tradições de um povo. Alguns costumes e tradições permanecem durante anos e anos numa dada comunidade, outros desaparecem, assim como o processo cultural analisado na primeira unidade, pois, estão recheados de uma rede de influência e interesses.
A antropologia esteve intimamente relacionada com o forte desenvolvimento e transformação do conhecimento científico, em particular com os processos relacionados com o evolucionismo biológico muito popular durante os séculos XVIII e XIX. E era do Positivismo assentado na crença de que a ciência explicaria todo e qualquer fenômeno, levou durante esse período a se interessar e compreender a origem da espécie humana e perceber até que ponto as escrituras da Bíblia serviriam ou não de modelo explicativo para a origem da humanidade. Assim, foram surgindo teorias que procuravam transpor os conceitos evolutivos para as sociedades exóticas e culturas diferenciadas.
O NOVO MUNDO
Ano de Produção: 2005/País de origem: EUA/Gênero: Aventura/Duração: 135 min. Direção: Terrence Malick
https://www.youtube.com/watch?v=hq3pcF14RuI
Sinopse: século XVII América. Do choque de duas culturas nasce o lendário amor entre a princesa índia Pocahontas e o capitão Smith, um explorador inglês. Afastados pelo destino, Smith se divide entre o dever e o amor; e Pocahontas entre dois amores
Desta forma, muitos autores, defendiam que as várias sociedades passavam por várias etapas de desenvolvimento que culminariam na estrutura da sociedade europeia e ocidental, considerada o expoente máximo da evolução social e cultural. Esta superioridade cultural foi debatida na Unidade 1 e observamos ser inaceitável, por considerarmos a não existência de culturas superiores ou inferiores, mas diferentes.
De acordo com Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, “a experiência e a tradição ensinam que toda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas, quando estes encontram uma possibilidade de ajuste aos seus quadros de vida…” “… Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-no tão diferentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostaríamos de sê-lo.”(Holanda, 1995:40).
Sofremos, pois, influências dos colonizadores, dos africanos, dos índios e de outros povos que por aqui se aventuram. Criamos, assim, uma cultura variada e rica. Mas a cultura que sobrepõe está sempre relacionada ao mais forte, mesmo que tentemos valorizar as demais culturas existentes e entendendo que a cultura pertence a todos nós. Estas são praticamente impostas…. Dentre vários exemplos citamos a imposição do português como língua oficial brasileira. Mesmo havendo hoje uma tentativa de valorização de línguas nativas, jamais elas serão oficializadas… A nossa volta o que temos desses traços? Nada praticamente!
Nesta visão de superioridade e imposição cultural surge um conceito que mais tarde seria classificado de etnocentrismo, ou seja, a tendência em considerar a sociedade europeia e ocidental como referencial para todas as outras sociedades diferentes deste modelo.
Observamos que logo após esse período positivista, os antropólogos passaram a considerar que o campo de ação da Antropologia se encontrava necessariamente ligados às sociedades diferentes, isoladas e sem escrita. O exótico e diferente, ou seja, a alteridade passou a ser o carro chefe da Antropologia. Apoiados no conceito de diversidade cultural (e quanto mais diversos melhor) os antropólogos viajaram aos lugares mais recônditos do mundo para perceber como os outros se definiam e se caracterizavam.
Hoje em dia o objeto de estudo da Antropologia já não são as sociedades intocadas pelos brancos. Muito possivelmente já não existem sociedades humanas isoladas, por isso esse objeto inicial encontra-se praticamente esgotado. Por esse motivo os antropólogos têm voltado para o interior dos seus próprios contextos sociais e culturais de forma a compreenderem os fenômenos que hoje em dia se desenvolvem, não sendo por isso necessário abarcar meio mundo à procura da alteridade para poder estudar, apoiando na diversidade de comportamentos e práticas culturais e sociais.
Etnocentrismo, ou seja, a tendência em considerar a sociedade europeia e ocidental como referencial para todas as outras sociedades diferentes deste modelo.
1492: A CONQUISTA DO PARAÍSO
Ano de Produção: 1992/País de origem: FRA/ESP/ING/Gênero: Drama/Duração: 155 min. Direção: Ridley Scott
Sinopse: A odisséia da expedição de Cristóvão Colombo até descobrir a América. O estruturalismo é muito utilizado por historiadores ao fazer uso de uma análise interdisciplinar para uma interpretação temporal. Tal método possibilita observar a estrutura econômica, social, política e cultural, não perdendo de vista o entendimento do fato numa perspectiva reduzida ou individual, ligando a um contexto mais amplo, numa interferência entre micro e macro análise e ainda permitindo uma narrativa de tal acontecimento. (BURKE, 1992)
A MASSAI BRANCA
Ano de Produção: 2005/País de origem: ALE/Gênero: Drama/Duração: 131 min.
Sinopse: Baseado em uma autobiografia original da escritora Suiça Corinne Hofmann. Em férias no Quênia, Carola decide deixar seu namorado para ficar com um guerreiro da tribo dos Massai. Ela tem que se adaptar à maneira de vida da tribo, que inclui se alimentar de leite misturado com sangue e posturas machistas.
ARTIGO – VOCÊ TEM CULTURA?
Roberto da MATTA
Outro dia ouvi uma pessoa dizer que “Maria não tinha cultura”, era “ignorante dos fatos básicos da política, economia e literatura”. Uma semana depois, no Museu onde trabalho, conversava com alunos sobre “a cultura dos índios Apinayé de Goiás”, que havia estudado de 1962 até 1976, quando publiquei um livro sobre eles (Um mundo dividido). Refletindo sobre os dois usos de uma mesma palavra, decidi que esta seria a melhor forma de discutir a ideia ou o conceito de cultura tal como nós, estudantes da sociedade a concebemos. Ou, melhor ainda, apresentar algumas noções sobre a cultura e o que ela quer dizer, não como uma simples palavra, mas como uma categoria intelectual um conceito que pode nos ajudar a compreender melhor o que acontece no mundo em nossa volta.
Retomemos os exemplos mencionados porque eles encerram os dois sentidos mais comuns da palavra. No primeiro, usa-se cultura como sinônimo de sofisticação, de sabedoria, de educação no sentido restrito do termo. Quer dizer, quando falamos que “Maria não tem cultura”, e que “João é culto”, estamos nos referindo a certo estado educacional destas pessoas, querendo indicar com isto sua capacidade de compreender ou organizar certos dados e situações. Cultura aqui é equivalente a volume de leituras, a controle de informações, a títulos universitários e chega até mesmo a ser confundido com inteligência, como se a habilidade para realizar certas operações mentais e lógicas (que definem de fato a inteligência), fosse algo a ser medido ou arbitrado pelo número de livros que uma pessoa leu as línguas que pode falar, ou aos quadros e pintores que pode de memória, enumerar. Como uma espécie de prova desta associação, temos o velho ditado informando que “cultura não traz discernimento”… Ou inteligência, como estou discutindo aqui.
Neste sentido, cultura é uma palavra usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma arma discriminatória contra algum sexo, idade (“as gerações mais novas são incultas”), etnia (“os pretos não tem cultura”) ou mesmo sociedades inteiras, quando se diz que “os franceses são cultos e civilizados” em oposição aos americanos que são “ignorantes e grosseiros”. Do mesmo modo é comum ouvir-se referências à humanidade, cujos valores seguem tradições diferentes e desconhecidas, como a dos índios, como sendo sociedades que estão “na Idade da Pedra” e se encontram em “estágio cultural muito atrasado”. A palavra cultura, enquanto categoria do senso-comum ocupa como vemos um importante lugar no nosso acervo conceitual, ficando lado a lado de outras, cujo uso na vida cotidiana é também muito comum. Estou me lembrando da palavra “personalidade” que, tal como ocorre com a palavra “cultura”, penetra o nosso vocabulário com dois sentidos bem diferenciados. No campo da Psicologia, personalidade define o conjunto dos traços que caracterizam todos os seres humanos. É aquilo que singulariza todos e cada um de nós como uma pessoa diferente, com interesses, capacidades e emoções particulares. Mas na vida diária, personalidade é usada como um marco para algo desejável e invejável de uma pessoa. Assim, certas pessoas teriam “personalidade” outras não! É comum se dizer que “João tem personalidade” quando de fato se quer indicar que “João tem magnetismo”, sendo uma pessoa de “presença”. Do mesmo modo, dizer que “João não tem personalidade” quer apenas dizer que ele não é uma pessoa atraente ou inteligente.
Mas no fundo, todos temos personalidade, embora nem todos possamos ser pessoas belas ou magnetizadoras como um artista da Novela das Oito. Mesmo urna pessoa “sem personalidade” tem, paradoxalmente, personalidade na medida em que ocupa um espaço social e físico e tem desejos e necessidades. Pode ser uma pessoa sumamente apagada, mas ser assim é precisamente o traço marcante de sua personalidade.
No caso do conceito de cultura ocorre o mesmo, embora nem todos saibam disso. De fato, quando um antropólogo social fala em “cultura”, ele usa a palavra como um conceito chave para a interpretação da vida social. Porque para nós “cultura” não é simplesmente um referente que marca uma hierarquia de “civilização”, mas a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa. Cultura é, em Antropologia Social e Sociologia, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas. É justamente porque compartilham de parcelas importantes deste código (a cultura) que um conjunto de indivíduos com interesses e capacidades distintas e até mesmo opostas, transformam-se num grupo e podem viver juntos sentindo-se parte de uma mesma totalidade. Podem, assim, desenvolver relações entre si porque a cultura lhes forneceu normas que dizem respeito aos modos, mais (ou menos) apropriados de comportamento diante de certas situações. Por outro lado, a cultura não é um código que se escolhe simplesmente. É algo que está dentro e fora de cada um de nós, como as regras de um jogo de futebol, que permitem o entendimento do jogo e, também, a ação de cada jogador, juiz, bandeirinha e torcida.
Quer dizer, as regras que formam a cultura (ou a cultura como regra) é algo que permite relacionar indivíduos entre si e o próprio grupo com o ambiente onde vivem. Em geral, pensamos a cultura como algo individual que as pessoas inventam, modificam e acrescentam na medida de sua criatividade e poder. Daí falarmos que Fulano é mais culto que Sicrano e distinguirmos formas de “cultura” supostamente mais avançadas ou preferidas que outras. Falamos então em “alta cultura” e “baixa cultura” ou “cultura popular”, preferindo naturalmente as formas sofisticadas que se confundem com a própria ideia de cultura. Assim, teríamos a cultura e culturas particulares e adjetivadas. (Popular, indígena, nordestina, de classe baixa, etc.) como formas secundárias, incompletas e inferiores de vida social.
Mas a verdade é que todas as formas culturais ou todas as “subculturas” de uma sociedade são equivalentes e, em geral, aprofundam algum aspecto importante que não pode ser esgotado completamente por outra “subcultura”. Quer dizer, existem gêneros de cultura que são equivalentes a diferentes modos de sentir, celebrar, pensar e atuar sobre o mundo e esses gêneros podem estar associados a certos segmentos sociais. O problema é que sempre que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e de pensamento diferente, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, que é uma: forma de excluí-la.
Outro modo de perceber e enfrentar a diferença cultural é tomar a diferença como um desvio, deixando de buscar seu papel numa totalidade. Desta forma, podemos ver o carnaval como algo desviante de uma festa religiosa, sem nos darmos conta de que as festas religiosas e o carnaval guardam uma profunda relação de complementaridade. Realmente, se no terreno da festa religiosa somos marcados pelo mais profundo comedimento e respeito pelo foco no “outro mundo” é porque no carnaval podemos nos apresentar realizando o justo oposto.
Assim, o carnavalesco e o religioso não podem ser classificados em termos de superior ou inferior ou como articulados a uma. “cultura autêntica” e superior, mas devem ser vistos nas suas relações que são complementares. O que significa dizer que tanto há cultura no carnaval quanto na procissão e nas festas cívicas, pois que cada uma delas é um código capaz de permitir um julgamento e uma atuação sobre o mundo social no Brasil. Como disseram uma vez, essas festas nos revelam leituras da sociedade brasileira por nós mesmos e é nesta direção que devemos discutir o conteúdo e a forma de cada cultura ou subcultura em uma sociedade (veja-se o meu livro, Carnavais; Malandros e Heróis). No sentido antropológico, portanto, a cultura é um conjunto de regras que nos diz como o mundo pode e deve ser classificado.
Ela, como os textos teatrais, não pode prever completamente como iremos nos sentir em cada papel que devemos ou temos necessariamente que desempenhar, mas indica maneiras gerais e exemplos de como pessoas que viveram antes de nós os desempenharam. Mas isso não impede, conforme sabemos, emoções. Do mesmo modo que um jogo de futebol com suas regras fixas não impedem renovadas emoções em cada jogo. É que as regras apenas indicam os limites e apontam os elementos e suas combinações explícitas. O seu funcionamento e, sobretudo, o modo pelo qual elas engendram novas combinações em situações concretas é algo que só a realidade pode dizer. Porque embora cada cultura contenha um conjunto finito de regras, suas possibilidades de atualização, expressão e reação em situações concretas, são infinitas.
Apresentada assim, a cultura parece ser um bom instrumento para compreender as diferenças entre. Os homens e as sociedades. Elas não seriam dadas, de uma vez por todas, por meio de um meio geográfico ou de uma raça, como diziam os estudiosos do passado, mas em diferentes configurações ou relações que cada sociedade estabelece no decorrer de sua. Mas é importante acentuar que a base destas configurações, é sempre um repertório comum de potencialidades. Algumas sociedades desenvolveram algumas dessas potencialidades mais e melhor do que outras, mas isso não significa que elas sejam mais pervertidas ou mais adiantadas. O que isso parece indicar é, antes de mais nada, o enorme potencial que cada cultura encerra, como elemento plástico, capaz de receber as variações e motivações dos seus membros, bem como os desafios externos. Nosso sistema caminhou na direção de um poderoso controle sobre a natureza, mas isso é apenas um traço entre muitos outros. Há sociedades na Amazônia onde o controle da natureza é muito pobre, mas onde existe urna enorme sabedoria relativa ao equilíbrio entre os homens e os grupos cujos interesses são divergentes. O respeito pela vida que todas as sociedades indígenas nos apresentam, de modo tão vivo, pois que os animais são seres incluídos na formação e discussão de sua moralidade e sistema político, parece se constituir não em exemplo de ignorância e indigência lógica, mas em verdadeira lição, pois, respeitar a vida deve certamente incluir toda a vida e não apenas a vida humana. Hoje estamos mais conscientes do preço que pagamos pela exploração desenfreada do mundo natural sem a necessária moralidade que nos liga inevitavelmente às plantas, aos animais, aos rios e aos mares.
Realmente, pela escala destas sociedades tribais, somos uma sociedade de bárbaros, incapazes de compreender. O significado profundo dos elos que nos ligam com todo o mundo em escala. Global. Pois é assim que pensam os índios e por isso que as suas histórias são povoadas de animais que falam e homens que se transformam em animais. Conosco, são as máquinas que tomam esse lugar…
O conceito de cultura, ou, a cultura como conceito, então, permite uma perspectiva mais consciente de nós mesmos. Precisamente porque diz que não há homens sem cultura e permite comparar culturas e configurações culturais como entidades iguais, deixando de estabelecer hierarquias em que inevitavelmente existiriam sociedades superiores e inferiores. Mesmo diante de formas culturais aparentemente irracionais, cruéis ou pervertidas, existe o homem a entendê-las – ainda que seja para evitá-las, como fazemos com o crime – é uma tarefa inevitável que faz parte da condição de ser humano e viver num universo marcado e demarcado pela cultura. Em outras palavras, a cultura permite traduzir melhor a diferença e entre nós e os outros e, assim fazendo, resgatar a nossa humanidade no outro e a do outro em nós mesmos. Num mundo como o nosso, tão pequeno pela comunicação em escala planetária, isso me parece muito importante. Porque já não se trata somente de fabricar mais e mais automóveis, conforme pensávamos em 1950, mas desenvolver nossa capacidade para enxergar melhores caminho para os pobres, os marginais e os oprimidos. E isso só se faz com uma atitude aberta para as formas e configurações sociais que, como revela o conceito de cultura, estão dentro e fora de nós.
Num país como o nosso, onde as formas hierarquizantes de classificação cultural sempre foram dominantes, onde a elite sempre esteve disposta a autoflagelar- se dizendo que não temos uma cultura, nada mais saudável do que esse exercício antropológico de descobrir que a fórmula negativa – esse dizer que não temos cultura é, paradoxalmente, um modo de agir cultural que deve ser visto, pesado e talvez substituído por uma fórmula mais confiante no nosso futuro e nas nossas potencialidades.
**Artigo publicado no Jornal da Embratel, RJ, 1981.
**Roberto Da Matta, pesquisador e professor de Antropologia Social do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista. É autor dos livros: Ensaios de Antropologia Estrutural (Editora Vozes), Um Mundo Dividido (Editora Vozes) , O Inverso do Carnaval (Edições Pinakotheke), Carnavais, Malandros e Heróis (ZaharEditores) e Relativizando: Umaintrodução à Antropologia Social (Editora Vozes).
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