Nesta Unidade compreenderemos as novas formas de representação do homem e da sociabilidade, entenderemos os desafios atuais para uma antropologia renovada e identificaremos o contexto e as características de áreas como a antropologia da globalização, antropologia feminista e antropologia das redes sociais.
Nesta videoaula vou contextualizar a antropologia do século XXI a partir de uma restrospectiva de concepções anteriores. Assista a seguir:
Pensar e refletir sobre o tempo no qual vivemos, nas questões filosóficas e antropológicas do momento atual, é sempre mais desafiante, pois nos falta a perspectiva temporal necessária para análises mais duradouras. Entretanto, esta é uma provocação que precisa ser enfrentada. Nesta Unidade de Ensino, vamos contextualizar os desafios de uma Antropologia contemporânea, bem como situar sua reconfiguração a partir dos novos cenários e concepções sobre as formas de viver do século XXI.]
Figura 23
Antes de trazermos um panorama dos elementos da contemporaneidade que impactam nas concepções sobre o humano e a sociabilidade, vamos brevemente retomar as características acerca das concepções de homem do Renascimento e da Modernidade.
O Humanismo Renascentista, do século XVI, trouxe o tema da dignidade humana, no qual a capacidade de transformação de seu mundo foi a principal característica. Essa antropologia traz a ideia de uma natureza humana e de uma universalidade do homem.
O pensamento de René Descartes, no século seguinte, marca a racionalidade e o método nos quais tanto o mundo como o homem seriam representados como máquinas e poderiam ser analisados e explicados pelo modelo matemático.
O projeto de iluminar o mundo, do século XVIII, consolidou a confiança na infalibilidade da razão e na concepção otimista de ciência e do homem frente à capacidade de conhecer e agir sobre o mundo e sobre a natureza.
Assim, as concepções de homem, constituídas a partir do século XVI e ao longo do período moderno, consolidaram um imaginário no qual a ênfase antropológica foi marcada pela centralidade na subjetividade como individualidade e na valorização do homem, sua universalidade e racionalidade.
Porém, como demarcado por Marcondes (2008), essa visão construída ao longo de três séculos foi também problematizada, e a centralidade do homem sofreu abalos a partir de três rupturas que o autor denomina de revoluções. A primeira foi a revolução copernicana, já no século XVI, que, ao deslocar a Terra do centro do universo, também abalou a centralidade do homem nesse ordenamento. A segunda revolução foi a darwiniana, no século XIX, ao revelar que o homem é consequência de uma evolução natural, sendo apenas mais uma espécie entre tantas, demovendo a ideia de superioridade humana. E, finalmente, a terceira revolução, empreendida por Sigmund Freud e sua descoberta do Inconsciente na virada do século XIX para o século XX, indica que o homem não seria definido apenas por sua racionalidade.
Figura 24
O sociólogo e filósofo Zygmunt Baumam (1925 – 2017), polonês radicado na Inglaterra, por meio de seu argumento de liquidez da modernidade, nos ajuda a compreender as concepções de homem, as formas de sociabilidade e os valores em jogo na contemporaneidade.
A metáfora da liquidez indica como principal característica da sociedade atual a ambivalência, tal qual a água que mantendo suas particularidades e essenciais pode apresentar se em variados estados da matéria: líquido, sólido e gasoso.
Figura 25 – O Filosofo Zygmunt Baumam.
Foi no livro Modernidade Líquida, o autor sintetiza que “(…) ‘fluidez’ ou liquidez’ como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras, na história da modernidade” (BAUMAN, 2001, p. 9). Os moldes e configurações do período pré-moderno foram substituídos por outros na modernidade sólida e, na modernidade liquida, foram substituídos por muitos padrões e códigos simultâneos que se chocam e se contradizem na sociedade.
A partir da obra citada de Bauman, com sua metáfora de liquidez, e recolhendo em outras de suas publicações sobre o tema demarcam-se algumas características e consequências das novas representações do ser e do conviver em sociedade:
Veja o vídeo “O que é a modernidade líquida de Baumam” para compreender a ideia de liquidez no escopo do pensamento do filósofo e, de modo mais específico, como articulá-lo em relação à fragilidade dos laços sociais.
https://www.youtube.com/
watch?v=cRN9kInWlxw&t=207s
O processo de certa diluição do discurso moderno acerca do homem, somado a um conjunto de transformações nos séculos XX e XXI no campo socioeconômico, tecnológico, biológico e os novos movimentos sociais, desafiaram a Antropologia a revisitar seus pressupostos e metodologias, reconduzindo esse campo do conhecimento às questões contemporâneas.
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Marconi e Presotto (2019) recolhem de alguns autores antropólogos as críticas que a antropologia deveria enfrentar e as proposições para que se coloque como um campo do conhecimento pertinente à sociedade do século XXI.
Uma crítica inicial aborda a dimensão epistemológica e problematiza o objeto de estudo que, antes era o ‘outro’ exótico e distante, e que posteriormente contemplou objetos-temas marginais não tão distantes nem tão distintos dos(as) pesquisadores(as).
A atualidade traz a problemática da relação entre pesquisador e pesquisado e o compartilhamento de ambos no cenário da prática antropológica, além do reconhecimento da importância dos sujeitos pesquisados na construção das teorias. Um segundo ponto da crítica passa por revisar outras possibilidades metodológicas que não fiquem limitadas à etnografia e passem a considerar a análise e reflexão científico-social. A terceira crítica, articulada à anterior, recai sobre aspectos que articulam teoria e metodologia antropológica. A tradição antropológica privilegiou a cultura para analisar os povos estudados e teve no trabalho de campo sua identidade simbólica, concentrando esforços de pesquisa no local geográfico.
Angariadas as críticas, a antropologia, em tempos de espaços e comunicação virtuais nos quais pessoas e culturas estão em movimento constantes, necessita ser revisada e ampliada. Nesse sentido, as abordagens metodológicas de coleta e análise podem ser ampliadas na atualidade e incluir entrevistas, análise de jornais, documentos e meios de comunicação. ‘Na sociedade do século XXI, o antropólogo nunca estará “fora do campo”’ (MARCONI; PRESOTTO, 2019, p. 280).
Para superar os desafios históricos de uma antropologia que tradicionalmente ocupou um ‘nicho selvagem’ nas ciências humanas a partir de uma perspectiva ocidentalizada dos povos, a pesquisa de Marconi e Presotto (2019) indica que uma antropologia renovada deve buscar resposta para a seguinte questão: em que consiste a natureza do local como experiência vivida no contexto de um mundo globalizado e desterritorializado?
As respostas aos desafios da Antropologia na atualidade podem ser sintetizadas por:
Figura 28
Algumas evidências desse movimento para uma antropologia renovada às questões do século XXI podem ser verificadas por meio das articulações com outras áreas. Em 2012, a categoria de antropólogos e pesquisadores da área estiveram envolvidos em reunião do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) para refletir sobre o papel da antropologia diante do esforço nacional para o desenvolvimento. A ação visava elaborar e promover conjuntamente pesquisas e atividades para contemplar a proteção da população, o reconhecimento social e cultural de várias comunidades tradicionais e a preservação ambiental.
Conheça a publicação desse encontro por meio de várias entrevistas realizadas com antropólogos(as) brasileiros(as) em Os antropólogos e o desenvolvimento.
Vamos destacar três correntes atuais da Antropologia como vertentes que buscam responder a uma disciplina em diálogo com o século XXI, a saber: a Antropologia da Globalização, a Antropologia das Redes Sociais e a Antropologia Feminista. (MARCONI; PRESOTTO, 2019).
Antropologia da Globalização faz parte das disciplinas emergentes na antropologia e será situada nesta unidade de ensino como tal e também na perspectiva contextual aos desafios e as transformações do conhecimento científico, e consequentemente para a área em questão.
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Nesta videoaula a abordagem é sobre a Antropologia da Globalização. Explico e apresento suas principais características.
A foto acima representa um assentamento de refugiados. Reflita sobre outras circunstâncias que estão relacionadas direta ou indiretamente à globalização. Quais acontecimentos poderiam ser investigados na perspectiva da antropologia da globalização?
O sociólogo Antony Giddens, no final dos anos de 1990, em ‘O mundo na era da globalização’, faz um panorama do processo de globalização, conceituando e demarcando suas características. “A globalização é uma política, tecnológica e cultural, além de econômica. Acima de tudo, tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunicação registrado a partir do final da década de 1960” (p. 22).
Marconi e Presotto (2019) destacam que uma característica do processo de globalização é o alongamento dos acontecimentos, decisões e atividades de certa região do mundo para indivíduos e regiões distantes geograficamente. Ocorre uma intensificação da interdependência das relações entre o global e o local.
O avanço de um mundo globalizado acentua-se a partir de 1989 com o esgotamento do comunismo soviético e com a queda dos regimes nos países que constituíam o bloco soviético. Marconi e Presotto (2019) apontam como um segundo fator de intensificação da globalização o aumento dos mecanismos internacionais e regionais de governo em fóruns políticos comuns, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia. Completa o quadro a expansão das organizações não governamentais internacionais em diversos países.
Na atualidade, a neogloblização impõe um cenário de incertezas econômicas, políticas e sociais no qual o esgotamento ou escassez de recursos como água potável, alimentos, serviços de saúde, desemprego e precarização dos empregos, catástrofes humanas e ambientais, intensificação e internacionalização dos conflitos e a afirmação dos nacionalismos e fundamentalismo constituem ameaças que exigem análises e respostas.
A Antropologia da Globalização, conforme indica o levantamento de Marconi e Presotto (2019), deve a partir do reconhecimento e da análise histórica, descrever o que é a globalização e contribuir para explicar as novas realidades, fenômenos socioculturais, fluxos complexos e interdependência entre os acontecimentos econômicos, sociais, políticos, familiares e comunitários. Assim, a antropologia da globalização surge como campo que investiga as relações entre cultura, política e economia.
Você pode conhecer a articulação entre trabalho, globalização e antropologia no artigo de Rosana Eduardo da Silva Leal
https://periodicos.claec.org/
index.php/relacult/article/
view/1727/1162
Uma Antropologia das Mulheres precedeu à Antropologia Feminista, e é indicada por Bonetti (2012) como uma primeira fase na qual o fundamento principal estava na relação entre as mulheres e a antropologia. Nessa origem, o questionamento recaía sobre o androcentrismo na antropologia, ou seja, a invisibilidade das mulheres tanto no âmbito acadêmico quanto nas pesquisas que excluíam as mulheres dos estudos. Promoveu reflexões sobre a variabilidade cultural do sentido da categoria ‘mulher’. Porém, essa inovação que interroga a universalidade da mulher, ainda mantinha como pressuposto naturalizado e transcultural a subordinação feminina.
A Antropologia Feminista é uma disciplina recente, com pouco mais de 30 anos, e tem seu desenvolvimento especialmente nos Estados Unidos da América e na Inglaterra. A adjetivação feminista está ligada ao ativismo feminino e aos movimentos sociais feministas, que aconteceram a partir do final do século XIX até a atualidade.
Nesta videoaula vou falar ainda mais sobre esta antropologia. Apresentar seu histórico, contexto e suas principais características. Veja a seguir:
Figura 31
O desenvolvimento de uma antropologia feminista está ligado aos movimentos sociais feministas e às teorias feministas. Estas teorias organizam temporalmente tais movimentos a partir de suas pautas e discursos em três momentos fundamentais, designados ondas ou vagas do feminismo (NURENBERG, 2008).
A primeira onda corresponde ao período mais extenso, de meados do século XIX até os anos de 1960. Essa onda do feminismo caracterizou-se pela luta por direitos civis, políticos e no trabalho.
No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuem o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decide coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobre o movimento e passa a cooperar com as novas feministas. Ela enfrenta grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decide que o combate pela igualdade de direitos merece alguns sacrifícios.

A segunda onda, que vai dos anos de 1960 a 1980, foi marcada por grande mobilização e atividade, trazendo particularidades nas demandas e temas. Compuseram as principais discussões a distinção entre sexo e gênero, as ideias de opressão e desigualdades de condições, a micropolítica (interpessoal, famílias, trabalho), políticas de saúde sexual e reprodutiva, que também foram incorporadas na esfera acadêmica. A segunda vaga reflete uma antropologia da mulher mais que uma antropologia feminista.
A terceira onda tem sua configuração a partir de meados de 1980 e estende-se até o momento atual. Sua particularidade assinalou abordagens teórico-metodológicas mais críticas, e como consequência desse aspecto, articulou outras categorias, tais como raça, classe, etnia e localidade, como elementos geradores de desigualdades. Incorporou também a análise das diversas formas de construção e representação do poder.
Marcadores sociais interseccionados colocam mulheres negras em lugares específicos, impondo a estas uma hierarquização social em relação às mulheres brancas. Assim, torna-se fundamental a compreensão de que as pautas dos movimentos sociais, tal como o feminista, necessitam considerar a racialidade em suas perspectivas. O conceito de interseccionalidade é um recurso teórico-metodológico importante para a visibilidade das necessidades e demandas das mulheres negras e pode ser um instrumento para diagnóstico e planejamento de ações em políticas de gênero.
A ideia de intersecção já estava no pensamento de teóricas feministas do movimento negro brasileiro, dentre as mais representativas está Lelia Gonzales. Mineira, nascida em 1935 e falecida em 1994, foi historiadora, geógrafa e filósofa. Teve intensa participação no Movimento Negro Brasileiro. Sua produção teórica tardou a ser reconhecida.
Em sua obra ‘Racismo e sexismo na cultura brasileira’ (1984), expõe, por meio das imagens de controle atribuídas à mulher negra na sociedade, a intersecção gênero e raça: mulata, mucama e mãe preta. Explorou o papel da colonialidade-colonialismo como marcador social de análise e cunhou o termo ‘amefricanidade’ para discutir questões geopolíticas das experiências distintas de homens e mulheres negras no mundo. Seu pensamento dialogou com a psicanálise de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Franz Fanon (ASSIS, 2019).
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É possível vislumbrar, conforme Perez e Ricoldi (2023), uma quarta onda de movimento feminista, caracterizada pela interseccionalidade, diversidade de feminismos, mobilização digital, organizada em forma de coletivos de organizações fluidas e discursivamente diferentes das organizações tradicionais.
A Antropologia Feminista foi-se configurando a partir de uma revisão crítica das seguintes dimensões (BONETTI, 2012):
Revisão crítica do imperativo biológico do gênero, revisão crítica da universalidade da opressão-subordinação e das vítimas oprimidas de cada sociedade, revisão crítica sobre o trabalho de campo e sobre a pesquisa qualitativa, revisão crítica sobre os cânones do pensamento antropológico.
O interesse investigativo da antropologia feminista incide sobre como cada sociedade organiza seus sistemas de valores de gênero e como estes impactam em estruturas de desigualdades. As estruturas de gênero são problematizadas em termos das relações de poder que podem tornar diferenças em sobreposição (camadas) em desigualdades.
Ainda que a antropologia feminista parta do conceito de gênero para sua constituição, nem todo estudo de gênero na antropologia é feminista. Com isso, Bonetti (2012) destaca que o gênero é incorporado não apenas como referindo-se a papéis sociais, mas sobretudo como uma estrutura organizadora da vida social, uma categoria que diferencia hierarquicamente o poder.
Bonetti (2012) explicita que a marca da Antropologia Feminista e sua contribuição às Teorias Feministas ocorre, especialmente, por meio da pesquisa etnográfica, com suas comparações transculturais que destituem a universalidade biológica da opressão-subordinação de gênero.
Para o sociólogo Manuel Castells (1999), em ‘A Sociedade em Rede’, as redes de comunicação digital tornaram-se o que as infraestruturas energéticas foram para a sociedade industrial. O autor destaca cinco aspectos centrais do paradigma da tecnologia da informação contemporânea:
Constituem tecnologias para agir sobre a informação e não apenas informações novas para agir nas tecnologias.
– A ampla infiltração de seus efeitos.
– A lógica de organização em redes.
– Flexibilidade e grande capacidade de reconfiguração.
– Convergência de tecnologias em sistemas altamente integrados.
Marconi e Presotto (2019) destacam algumas mudanças sociais conformadas pelo novo paradigma tecnológico, tais como manifestações culturais dominantes, interativas e eletrônicas, que tornam-se referências para o processamento simbólico, conformando uma cultura da virtualidade real. Outro aspecto social derivado de um mundo ordenado por mercados e redes seria a crise e o esvaziamento do papel de instituições como o Estado e a família, o que promove a busca por afirmações identitárias coletivas.
Com a difusão da sociedade em rede, e com a expansão das redes de novas tecnologias de comunicação, dá-se uma explosão de redes horizontais de comunicação, bastante independentes do negócio das mídias e dos governos, o que permite a emergência daquilo que chamei “comunicação de massa auto comandada”. É comunicação de massas porque é difundida em toda a internet, podendo potencialmente chegar a todo o planeta. É auto comandada porque geralmente é iniciada por indivíduos ou grupos, por eles mesmos, sem a mediação do sistema de mídia. Por exemplo, a explosão de blogs, vlogs (videoblogs), podcasts, streaming e outras formas de interatividade. A comunicação entre computadores criou um novo sistema de redes de comunicação global e horizontal que, pela primeira vez na história, permite que as pessoas se comuniquem umas com as outras sem utilizar os canais criados pelas instituições da sociedade para a comunicação socializante. Assim, a sociedade em rede constitui comunicação socializante para lá do sistema de mídia de massa que caracterizava a sociedade industrial (p. 293)
Na atualidade existem redes sociais de quase tudo: de comunicação, de intercâmbio de conteúdo, de organização de conteúdo, de fóruns de debates, redes de compra, redes acadêmicas etc.
O que você pensa sobre o uso da internet? Qual é a influência dela nos diversos campos de sua via?
Diante desse panorama, muitas iniciativas têm sido pensadas para regular o uso das novas redes tecnológicas de comunicação. Na realidade brasileira, destaca-se a Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014, conhecida como Marco Civil da Internet. Este instrumento regulador estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet no Brasil, além de determinar as diretrizes para atuação da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios em relação ao assunto. Porém, essa normativa não consegue alcançar todos os aspectos do uso da internet e das redes sociais na atualidade. Recentes constatações e reflexões alertam sobre seus limites, e propostas de revisão são discutidas na sociedade ampliada, nas instituições e organizações, e nas instâncias legislativas.
E a antropologia nos novos cenários tecnológico e de redes socais?
A antropologia, frente às tecnologias e redes sociais do século XXI, investiga tanto o surgimento de novos saberes e fazeres científicos e não científicos, bem como as novas representações do homem no contemporâneo e nas chamadas ciberculturas, que colocam uma nova ordem do espaço e da realidade.
Um dos desafios empreendidos pela antropologia das redes sociais consiste em ampliar a tradição etnográfica, buscando novas formas e contextos metodológicos. No cenário contemporâneo, as metodologias na rede e em redes também envolvem o antropólogo.
Este pesquisador está simultaneamente dentro e fora das redes. Nessa área emergente da antropologia, a condição digital é a representação de um fenômeno social contemporâneo, com muitas e diferentes repercussões em culturas, grupos e gerações específicas.
A defesa entre a filosofia e antropologia é apresentada por Serrão (2018) ao indicar que responder à questão do homem será dependente de como a pergunta será formulada.
seja pela essência, pela natureza, pelas capacidades, pelas identidades. A circularidade própria de um saber reflexivo coloca a antropologia filosófica ao abrigo do reducionismo e do perigo de se ver confinada a uma ou a um conjunto de ciências empíricas. É a própria filosofia quando procurar inquiri para melhor o compreender, mas também para promover o valor da humanidade (p. 34)
Os comentários de Serrão apontam a abertura e o movimento para o qual campos dos conhecimentos, tais como a filosofia e a antropologia, se desenvolvem, articulando-os não só à sua historicidade, mas também ao tempo vivo atual.