Ao final da unidade IV, esperamos que você seja capaz de:

Meta da Unidade

Nesta Unidade, compreenderemos o contexto histórico e cultural do Renascimento, entenderemos os aspectos fundamentais da Filosofia Humanista e da Filosofia Existencial e reconheceremos suas repercussões no desenvolvimento da Filosofia Moderna e na Psicologia.

Filosofia Humanista e a Concepção de Homem

Percorremos, até este momento da disciplina, várias concepções sobre o homem, situadas cada qual em um momento da história filosófica. Da Filosofia dos Pré-socráticos, que atrelava o entendimento do homem aos elementos da natureza, passando pela Filosofia Clássica, que buscou uma compreensão do homem por meio da racionalidade maiêutica, dialética e metafísica, até a Filosofia Medieval Cristã que apresentou uma concepção de homem sempre em referência aos valores teológicos.

Chegamos a um momento da disciplina no qual abordaremos uma Filosofia nomeada como Humanista. E por que esta qualificação de Filosofia? Qual a particularidade dessa nova concepção de homem? Teria a Antropologia Filosófica um momento privilegiado em seu campo de saber em uma Filosofia que se nomeia como Humanista?

Nesta primeira videoaula relato sobre o renascimento em diversos aspectos para melhor compreensão da filosofia humanista. Acompanhe no video:

O RENASCIMENTO: CONTEXTUALIZANDO O HUMANISMO

Figura 15 – A Florença contemporânea

Fonte:

A Itália foi o espaço tanto do Renascimento como do Humanismo e foi também parâmetro para seu desenvolvimento nos demais países da Europa.

O termo “Renascimento” foi utilizado em 1860 pelo historiador da arte Jacob Burhard, um suíço, em sua obra “A Civilização do Renascimento na Itália”. Posteriormente, outros historiadores de arte também empregaram o termo. Portanto, “Renascimento” inicialmente está relacionado ao movimento artístico e cultural que nasceu na cidade italiana de Florença no século XV e foi até o século seguinte, tornando-se parte da identidade dos florentinos.

O entendimento do Renascimento como um período histórico situado entre a Idade Medieval e a Idade Moderna, com características próprias em outras áreas da vida social, como na política e na filosofia, foi incorporado apenas posteriormente pela historiografia. Porém, permanece ainda nos dias atuais como o período histórico com menos estudos e registros (MARCONDES, 2008).

Podemos dizer que os séculos XV e XVI são mais referenciados ao Movimento Humanista do que ao Renascimento. Assim, o Humanismo constitui a melhor expressão da Idade da Renascença.

Mas o que renasce nesse contexto? De maneira ampla e sintética, podemos dizer que o que renasce são os valores e conhecimentos da cultura greco-latina (JAPIASSÍ; MARCONDES, 2001).

Outra característica geral do Renascimento é constituir-se como um período que foi simultaneamente de muitas conciliações, rupturas e transformações. A Europa compartilhou posturas diversificadas a respeito dos costumes, das religiões, da política e da Filosofia (GHIRALDELLI, 2010).

Humanismo renascentista do século XV é apontado por Marcondes (2008) como um dos quatro fatores históricos, dos quais participam também as grandes navegações, a Reforma Protestante e a Revolução Científica Moderna, que influenciaram o surgimento e o desenvolvimento da Filosofia Moderna. Passemos a uma breve compreensão desse contexto que promoveu e delineou o Humanismo.

As grandes navegações expressaram, além de poder político e econômico, uma concepção de homem desbravadora e empreendedora, disposta a transformar e assumir riscos. O processo de exploração de outros continentes, que começou a acontecer por volta de 1492, abalou o conhecimento que se acreditava ter do mundo e do homem. A imagem de mundo da tradição Medieval foi estremecida pelo conhecimento que se teve a partir de então, e muitas ilusões foram dissolvidas quando os europeus obtiveram informações a respeito da dimensão e formato da Terra, da existência de outras culturas que habitavam o mundo e da diversidade da fauna e flora de outras localidades.

Essas constatações fragilizaram e desautorizaram a ciência antiga e, ao mesmo tempo, revelaram a necessidade de elaboração de novos conhecimentos na botânica, na geografia e em muitas áreas das ciências.

O encontro com outros povos fez estremecer o imaginário de uma suposta universalidade do que era o homem. Entretanto, as grandes navegações, em sua “missão civilizatória”, impuseram etnocentricamente os valores cristãos europeus, construindo fantasiosas representações acerca da humanidade dos povos explorados.

A Reforma Protestante, como movimento de crítica geral à institucionalização da Igreja Católica, ocorreu de forma pulverizada durante toda a Idade Média, mas seu auge, consistência e sistematização vieram com Martin Lutero (1483-1546), que se tornou a grande liderança. A Reforma difundiu-se por toda a Europa e sua ampliação era evidente: em 1527, era inaugurada a primeira Universidade Protestante; em 1534, a oficialização da Igreja Anglicana na Inglaterra; em 1560, a Escócia converteu-se ao Calvinismo e, em 1566, a Igreja Calvinista tornou-se oficial na Holanda. Os pontos centrais da crítica à Igreja Católica Tradicional eram sobre sua excessiva autoridade e institucionalização, incluindo a dimensão política e a ausência da valorização individual dos fiéis em suas práticas. Foram exatamente sob esses aspectos que a ética protestante foi edificada e consolidou os valores da predestinação, do espírito crítico, da liberdade individual e da livre iniciativa. Esses princípios foram fundamentais para o desenvolvimento econômico de uma burguesia protestante que também alçou poder político.

Galileu Galilei (1564-1642) – cientista, astrônomo e filósofo. Trouxe contribuições significativas para a astronomia, física e matemática.

A Revolução Científica Moderna, em seu ponto de partida, pode ser localizada em torno da defesa matemática de Nicolau Copérnico (1543) de seu Sistema Heliocêntrico, no qual o Sol é o centro do universo e os demais astros circulam em torno de sua órbita, inclusive a Terra.

Esse acontecimento por si mesmo é um marco das rupturas “mais marcantes no início da modernidade, uma vez que ia contra uma teoria estabelecida há praticamente vinte séculos, constitutiva da própria maneira pela qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e ao mundo ao qual pertencia” (MARCONDES, 2008, p. 168). Nesse sentido, destacam-se as contribuições de Galileu Galilei como ápice do processo de distanciamento do pensamento místico e sagrado da Idade Média para transformações das concepções de ciência, de mundo e de homem que se consolidariam no Iluminismo do século XVIII.

O HUMANISMO ARTÍSTICO E CULTURAL

Como vimos, o Renascimento foi inicialmente localizado no campo da Arte. Assim, o Humanismo é inaugurado como um movimento artístico e cultural. A Florença Renascentista era uma metrópole movimentada, de comércio abundante e rico, com muitos artesãos e banqueiros, e uma República de governantes cultos e pragmáticos. Esse cenário promoveu intenso investimento nas artes, além de esforços políticos para construir uma nova estrutura de cidade e de identidade que viriam a caracterizar o homem da Renascença (MARCONDES, 2008).

Figura 16 – O nascimento de Vênus (1486), Franco Botticelli

Fonte:

A Arquitetura foi a primeira expressão artística do Humanismo. Na reconstrução física da cidade, após a Guerra dos Cem Anos, as catedrais góticas e os monumentos sagrados passaram a conviver com edifícios, capelas e prédios públicos inspirados nas linhas geométricas harmoniosas e simétricas da arquitetura clássica grega. Essas características também estiveram presentes nas pinturas e esculturas que exibiam imagens de um corpo humano belo e vigoroso, representações do ideal de dignidade humana.

Na pintura, uma revolução de novas técnicas trouxe cores, dimensões, perspectivas, profundidades e nuances nunca realizadas na arte até então. Ainda que a referência religiosa não tenha sido totalmente abandonada neste momento, as produções artísticas retratavam cenas cotidianas, pessoas comuns e os ricos comerciantes da burguesia em formação, que, inclusive, eram patronos dos artistas. “A Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, é um exemplo de uma cidadã comum retratada nas artes.

A genialidade e a diversidade de conhecimentos de Leonardo da Vinci (1452-1519) fizeram dele o maior expoente da arte e dos valores do Humanismo Renascentista. Ele foi inventor de máquinas e instrumentos, estudou e foi ilustrador de anatomia, pintor de técnicas sofisticadas e deixou sua marca nas obras mundialmente conhecidas “A Última Ceia” e “Mona Lisa”. Sua criatividade, inquietude, seu espírito de homem empreendedor e de liberdade são a própria representação dos ideais do Humanismo.

INDICAÇÃO DE VÍDEO

Para conhecer a vida e obra de Leonardo da Vinci e compreender seu significado para o movimento Humanista Renascentista, assista ao envolvente vídeo documentário  Leonardo da Vinci – o homem que inventou o futuro em:


https://www.youtube.com/
watch?v=3iGPclknn_8&t=27s



Você pode também ouvir na plataforma Spotify, em Podcast

O Humanismo também se fez repercutir na Política, que buscou na moderação e no equilíbrio dos estoicos e epicuristas os valores da nova moral de governança. Marcondes (2008) indica que os escritos e manuais que orientavam as monarquias europeias sobre o exercício do poder propunham a independência política em relação à religião, liberdade de pensamento, racionalidade, redução das hierarquias, valorização das virtudes espontâneas e individuais e tolerância religiosa.

O pensador político mais influente e prestigiado foi Nicolau Maquiavel (1469-1527), que escreveu um clássico da teoria política: “O Príncipe”. Essa obra, que analisou historicamente diferentes governos que confiscaram ou perderam o poder, tem como tese a divisão entre política e moral para o exercício eficaz do poder por meio do desenvolvimento de virtudes como coragem, habilidade e persistência.

A FILOSOFIA HUMANISTA: CONTINUIDADES E RUPTURAS

É mais no contexto contemporâneo que a historiografia filosófica atribui valor específico ao pensamento filosófico do Renascimento e, portanto, à existência de uma Filosofia Humanista. Entre as características gerais de sua identidade, podemos advertir que a Filosofia Humanista é marcada simultaneamente por certa continuidade do pensamento Medieval e por rupturas fundamentais que seriam as bases para a Filosofia Moderna, entretanto, sem confundir-se com esta (MARCONDES, 2008).

Nesta segunda videoaula da Unidade IV  falo sobre continuidades,  rupturas e particularidades que caracterizaram esta filosofia. Assista no vídeo a seguir.

Outra característica geral da Filosofia Humanista Renascentista também foi a busca e valorização dos clássicos, com várias obras de Platão e Aristóteles sendo relidas, reinterpretadas e publicadas em latim, acompanhadas do aumento do fluxo de especialistas gregos para o Ocidente. A Filosofia Helenística também foi retomada, por meio das escolas epicuristas e estoicas.

Procurava-se reviver no pensamento filosófico uma cultura Greco-romana idealizada. Houve a criação da Academia Florentina ao modelo da Academia Platônica. Como ponto de partida, Marcondes (2008) destaca a recuperação do filósofo sofista Protágoras em sua afirmação de que “o homem é a medida de todas as coisas”. Essa célebre afirmação remete ao ponto de ruptura da Filosofia Humanista em relação à Filosofia Medieval.

O sincretismo e o ecletismo podem ser apontados como uma terceira característica geral da Filosofia Humanista. Segundo Marcondes (2008), vertentes filosóficas distintas poderiam ser colocadas lado a lado, como Protágoras e Platão.

Barros (2021) aborda a história do Humanismo Filosófico como um campo de complexidades que envolvem tanto permanências quanto rupturas.

Em termos de continuidade, alguns historiadores advogam um Humanismo de fins da Idade Média que, a partir da dinâmica social da época, teria mais características de adaptação, abertura e prenúncio do que propriamente descontinuidade em relação à Escolástica. Naquele momento, há uma relativização da ruptura, indicando que, desde o século XIII, existiriam elementos contextuais e uma diluição paulatina dos valores escolásticos, em que uma nova intelectualidade, que logo se tornaria humanista, já se anunciava. Enquanto ruptura, esta filosofia ligada ao Renascimento já se apresentava como descontinuidade contrastante com a Filosofia Cristã Medieval. Nesse sentido, constituiu uma alternativa intelectual que ampliou a argumentação tradicional, interligou campos de conhecimento e adotou estilo mais literário que científico-metodológico.

Em sua materialização, a Filosofia Humanista toma como princípio central o tema da “dignitas hominis” (dignidade do homem), que adquire novo sentido, opondo-se ao tema medieval da “miseria hominis” (a miséria do homem), o ser caído, descendente de Adão, marcado pelo pecado original (MARCONDES, 2008, p. 155).

A Antropologia Filosófica, no contexto do Humanismo, encontra as possibilidades de seu desenvolvimento específico. É designada por Vaz (1998) como uma antropologia de ruptura e transição: “ruptura com a imagem cristão-medieval do homem e transição para a imagem racionalista que dominará os séculos XVII e XVIII” (p. 81). A complexidade acerca das concepções de homem que passaram a ocupar a Filosofia do século XV resulta tanto de uma intrincada natureza da própria filosofia quanto do contexto sócio-histórico que, ao se desenhar, colaborou para a significativa mudança.

O termo humanismo, em princípio, possui uma característica que indica simultaneamente um novo olhar sobre o homem e a retomada da literatura clássica latina, considerada a maior expressão dos valores do Humanismo. Foi nesse momento que surgiu o livro impresso, contribuindo para a propagação da literatura e dos valores humanistas.

Vaz (1998) situa que, em antropologia, os escritos eram numerosos e um amplo campo pode ser contemplado a partir do movimento Humanista. O destaque é dado a Nicolau de Cusa pela sua dimensão exemplar em relação ao Humanismo em desenvolvimento.

Seu pensamento representa a dissolução das sínteses metafísicas vigentes até o século XIII e outras, como a Segunda Escolástica, que se estenderam até o século XVI. Nicolau de Cusa aborda a “individualidade humana confrontada dinamicamente com a infinitude cósmico-divina”. Ele anuncia, assim, a ideia de indivíduo que alguns veem como a chave do pensamento e da sensibilidade renascentistas (p. 79).

O tema da dignidade humana teria sido o mais característico do Humanismo. Os autores da Renascença celebram a dignidade humana por meio da originalidade em transitar da contemplação e da teoria para a ação. A capacidade de transformar seu mundo é a principal característica do homem. A partir da ideia de dignidade humana, tornam-se possíveis as concepções de consciência humana, características essenciais do homem e sua universalidade. A abstração de um homem universal e a ideia de natureza humana acendem o interesse pela observação empírica acerca do ser humano (VAZ, 1998).

Nomes relevantes da Filosofia Humanista:

Quadro 4 – Nomes relevantes da Filosofia Humanista

Filósofo Origem Principais argumentos e contribuições
Nicolau de Cusa (1401-1464)
Holanda
Valorizou a liberdade humana, defendeu o homem como centro da Criação e atribuiu-lhe uma dignidade natural, inerente à sua própria natureza enquanto ser humano. O homem é visto como um microcosmo que reproduz em si a harmonia do cosmo.
Lorenzo Vala (1407-1457)
Itália
Especialista em retórica e oratória, discutiu e interpretou textos clássicos, e defendeu uma moral inspirada no epicurismo.
Pico della Mirandola (1463-1494)
Itália
No “Discurso sobre a dignidade do homem” (1486), afirmou: “O homem não é um Deus em sentido absoluto; no entanto, enquanto ser humano, ele é um Deus humano”. Distanciou-se da ideia predefinida do Homem e abordou o ser humano como autor do seu próprio destino, cuja marca distintiva é o exercício da liberdade.
Erasmo de Roterdã (1469-1536)
Holanda
Enquanto representante de uma Filosofia Política, em “Elogio da Loucura”, questionou o racionalismo hermético da escolástica e defendeu uma sabedoria intuitiva e natural.
Michel de Montaigne (1533-1595)
França
Inaugurou o ensaio como gênero literário e propôs reflexões sobre a individualidade como característica humanista. Apresentou seus pensamentos como fruto de uma experiência pessoal, sem qualquer pretensão sistemática ou teórica.

Fonte:

PARA REFLETIR

Os valores Humanistas apresentam uma concepção de homem idealizada, na qual a autonomia, a liberdade e a independência são suas características quase que naturalizadas ou instintuais. Mas seria possível pensar em uma humanidade desatrelada às questões sociais e históricas?

A CRÍTICA À HERANÇA HUMANISTA

Vimos que os séculos XV e XVI possibilitaram uma grande transformação acerca da concepção de homem em comparação com os séculos precedentes, moldando e preparando o imaginário da cultura ocidental. A Filosofia Humanista do Renascimento desdobrou-se, na Idade Moderna, em campos variados, tais como: Filosofia Humanista Marxista, Filosofia Humanista Positivista, Filosofia Humanista Pragmática, Filosofia Humanista Evolutiva e Filosofia Humanista Existencialista. Conforme Ribeiro (2022), toda essa herança filosófica humanista possui, ao menos, um ponto de crítica em comum à Filosofia Humanista da Renascença: uma concepção de homem idealizada, abstrata e naturalizada.

Figura 17

Fonte: https://manuel3865.wixsite.com/psicologia/teora-humanista

Na atualidade, Ribeiro (2022) considera ser necessário reposicionar esses valores originais do Humanismo, indagando-os e propondo um Humanismo renovado. A partir das transformações da sociedade contemporânea, a Antropologia Filosófica tem angariado, por meio de alguns autores, tanto críticas quanto proposições indispensáveis para a renovação do Humanismo. O destaque é atribuído a quatro autores e seus respectivos trabalhos, que contribuem para pensar novos diálogos e possibilidades para o Humanismo na atualidade:

Charles Taylor (As Fontes do Self: A Construção da Identidade Moderna, 1997): critica a ideia naturalizada de humanidade. Destaca que, mesmo sendo seres de interioridade, liberdade e individualidade, vivemos como agentes morais e de identidades ligadas aos valores morais.

Paul Ricoeur (O Si-mesmo como Outro, 2014): ressalta que a existência é vivida em um mundo histórico, político, ético e moral. Enfatiza a questão da alteridade; assim, o homem é influenciado pela história, cultura e relações. Esse mundo de relações também expõe o homem às fragilidades.

Henrique Claudio Vaz (Antropologia Filosófica, 1991): vê o humano como um ser tanto de estruturas quanto de relações. As estruturas do ser humano são compostas por um esquema que envolve estruturas, relações e realizações. Alasdair Maintyre (Animais Racionais Dependentes: Por que os seres humanos precisam das virtudes?, 1999): critica a figura humana idealizada representada pelo adulto racional, autônomo, livre e independente. Resgata a ideia do humano como também um ser de dependência, vulnerabilidade, sofrimento, mas com capacidade de florescimento e desenvolvimento.

A partir da síntese dessas contribuições e do que elas propõem à reflexão atualizada sobre a investigação “o que é o homem?”, um Humanismo renovado deve, segundo Ribeiro (2022):

  • Considerar a diversidade humana em todos os seus aspectos;
  • Promover, por meio da educação, o desenvolvimento de capacidades e habilidades voltadas para uma visão de humanidade diversa;
  • Fomentar sociedades acolhedoras e responsáveis pela diversidade, que trabalhem pelo florescimento do bem comum, isto é, pela humanização do humano;
  • Propor um discurso Humanista que enfrenta as desigualdades sociais, opressões e injustiças;
  • Contemplar, em um discurso Humanista, a discussão sobre a tecnociência, a internet, a virtualidade e as relações daí decorrentes, visto que impactam na vida humana;
  • Abordar, também em um discurso Humanista, a urgente e emergente justiça ambiental.

 

Enfim, busca-se um Humanismo atualizado e revigorado que esteja atento à existência humana, mas também ao sentido que as formas de existir revelam e desvelam ao longo da história.

INDICAÇÃO DE VÍDEO

Neste vídeo, O Lado Sombrio do Iluminismo e a Desumanização dos Povos, um humanismo radical é discutido pelo pesquisador e escritor Renato Noguera, a partir da contribuições do filósofo Frantz Fanon.

https://www.youtube.com/
watch?v=IARUQl32sIc

Nesta última videoaula da unidade IV vou falar da filosofia da existência ou a filosofia existencial, mas para isso farei algumas diferenciações entre existência e existencialismo até chegarmos na filosofia existencial para falar um pouco dos percursores desta filosofia e destacar dois representantes: o  filosofo alemão Martin Heidegger  e o francês Jean Paul Sartre. Veja no vídeo a seguir. 

FILOSOFIA EXISTENCIAL E A CONCEPÇÃO DE HOMEM

Para descrever a Filosofia Existencial, passaremos pelo período caracterizado pela Filosofia Moderna, marcado entre os séculos XVII e XVIII pelo Racionalismo Clássico, e nos situaremos na Filosofia Contemporânea.

A Filosofia Contemporânea consiste no pensamento filosófico a partir de meados do século XIX até os dias atuais. Chauí (2000) alerta que, ainda que a proximidade temporal imponha alguns desafios à compreensão, é possível distinguir algumas questões que caracterizam o arcabouço filosófico de nossos tempos. Temas como a historicidade do homem, as críticas à ideia de progresso, ao otimismo racionalista e científico-tecnológico, às utopias revolucionárias e o interesse pela multiplicidade e diferença caracterizam, de forma genérica, essa Filosofia em curso.

EXISTÊNCIA, EXISTENCIALISMO E FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA

Você já teve uma crise existencial ou conhece alguém que teve?

Quais seriam as características de uma crise existencial?

Talvez conhecer alguns autores que trataram das questões da existência a partir de meados do século XIX possa ajudar você a pensar e refletir sobre o tema por meio de uma atitude filosófica.

“Existência” deriva do latim existentia e refere-se a algo que “está fora”, “está aí”, equivalendo à realidade e indicando qualquer coisa ou situação.

Considerando a Filosofia Clássica, pode-se afirmar que apenas em Aristóteles, com a ideia de substância das coisas — nas quais matéria e forma, potência e ato tiveram papel fundamental —, foram pesquisados os requisitos da existência de algo. Assim, verifica-se, segundo Mora (1996), os parâmetros iniciais que trazem a relação entre a existência e a essência. Alguns representantes da Filosofia Medieval Cristã, como São Tomás de Aquino, destacaram a existência enquanto sua atualidade, ou seja, é a presença atual da coisa na ordem física, na ordem real, em sua finalidade e inteligibilidade que a define.

Entretanto, a inclinação a inventariar o que seria a existência humana, para além de sua descrição no campo das ciências positivistas, é radicalizada no pensamento filosófico contemporâneo. Nesse contexto, o termo “existência” é delimitado e pode ser utilizado em dois sentidos, segundo Mora (1996):

  1.  Um conjunto de filosofias e modos de fazer filosofia que têm como tema central a existência humana ou a realidade humana, significando uma existência peculiar que difere de todas as demais. Desse modo, a “natureza humana não tem, de modo algum, a natureza de nenhuma coisa, tanto coisa física quanto coisa mental” (p. 260);
  2. Filosofia da existência como referência a alguns filósofos que, pelo menos em parte de suas obras, dedicaram-se à teorização sobre a existência humana, tais como Karl Jaspers, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Ortega e Gasset e Gabriel Marcel.

O existencialismo é designado, segundo Reynolds (2014), como um movimento filosófico e literário desenvolvido especialmente na França do século XX. Após a Segunda Guerra Mundial, intensificaram-se as preocupações em torno de temas como responsabilidade, liberdade e morte.

O termo “existencialismo” não fez parte do vocabulário dos filósofos considerados existencialistas, pois não consta em nenhum dos textos de referência dessa tradição filosófica. Portanto, não é possível afirmar que o existencialismo seja um movimento filosófico único e de identidade bem delimitada.

PRECURSORES DA FILOSOFIA EXISTENCIAL

Para contextualização e compreensão dos principais conceitos da Filosofia Existencial, abordaremos algumas influências do pensamento de Soren Kierkegaard e da fenomenologia de Edmund Husserl que precederam esta filosofia (REYNOLDS, 2014).

O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855) é considerado o antecessor do existencialismo. Embora fosse um filósofo cristão, Kierkegaard criticou a racionalidade iluminista e o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831). Esta última crítica baseou-se na ideia de que a ênfase excessiva na dialética hegeliana obscurecia o significado da existência individual. Ele também rejeitou o cristianismo doutrinário e ortodoxo, que estabelecia verdades e significados pré-concebidos para as pessoas, e salientou a incompatibilidade entre fé e razão.

O conceito de existência é central na obra de Kierkegaard e propõe que a existência humana não é determinada, mas construída por meio de empenho, risco, decisão, fé e responsabilidade.

Figura 18 – Obra O Grito do artista norueguês Edvard Munch, pintada em 1893

Fonte: https://www.culturagenial.com/quadro-o-grito-de-edvard-munch/

Kierkegaard foi um dos primeiros a escrever sobre a importância filosófica da experiência humana, como o desespero. Uma experiência que, quando refletida, dilui as certezas e, invariavelmente, nas situações de escolhas individuais e nos atos de autodeterminação, encontra o temor. Essa ideia seria precursora da angústia em Martin Heidegger. O desespero é uma questão que atravessa a obra de Kierkegaard. Ele faz parte da ambiguidade que constitui a síntese de querer livrar-se de si mesmo e querer ser si mesmo. O desespero pode manifestar-se de formas variadas, tanto como raiva, furor e cólera, quanto como segurança e tranquilidade. Portanto, a ninguém caberia afirmar nada acerca da síntese entre desejar ser o que se é e querer livrar-se de si. A saída para o desespero não passa pelo conhecimento, objetividade, mediação, sistema e prática ética. Esse diagnóstico filosófico entende que o desespero pode não ser necessário a todos, mas indica que é certo que ninguém está completamente livre do desespero (ROOS, 2022).

Kierkegaard aborda a questão de uma vida autêntica e uma vida inautêntica. Uma vida autêntica não se aproxima de uma moralidade universal, pronta e instituída, na qual, para evitar o desespero advindo de uma escolha, a maioria se alia. A vida autêntica e sua moralidade residiriam nas atitudes da pessoa que age e não em uma moral utilitarista que serve a toda uma sociedade. O indivíduo seria o fundamento da moralidade.

Assim, há um protesto contra qualquer provisão de atributos externos e objetivos, como partido, riqueza ou estado, para as decisões pessoais. Ninguém que se denomine existencialista será um “cavaleiro da boa consciência”, pregando verdades morais prescritivas a todos (REYNOLDS, 2014, p. 24).

A existência foi compreendida em Kierkegaard como abertura e processo, em que não há parâmetros objetivos para a realização de tornar-se si mesmo. O conhecimento é importante, mas não pode ser o fundamento das decisões existenciais (ROOS, 2022).

A Fenomenologia de Edmund Husserl também marca os antecedentes da Filosofia Existencial. Edmund Husserl nasceu em 1859, na atual República Tcheca. Concentrou seus estudos na matemática e, só posteriormente, nos anos de 1880, por sua aproximação com o psicólogo e filósofo Franz Bretano, desenvolveu sua carreira filosófica.

Um interesse singular na trajetória de Husserl está em contrapor a ideia de que as ciências naturais poderiam fornecer uma descrição completa e exaustiva da realidade. Esta crítica husserliana, como um antinaturalismo, é mais bem situada por Cerbone (2014), indicando que a divergência ao naturalismo “equivale à afirmação de que existem verdades e princípios que as ciências naturais pressupõem, mas que elas próprias não podem explicar. Nem toda verdade é uma verdade científica natural” (p. 29). O termo Fenomenologia adquire particularidade no pensamento de Husserl e, nesta disciplina, o abordaremos especialmente como um método e seus princípios gerais. No dicionário de Mora (1996), fenomenologia é indicada como “um ‘método’ de ver e uma ‘maneira de ver’”. (p. 291). Essa maneira de ver busca apreender o objeto como puras significações quando esse objeto se apresenta.

Para empreender essa depuração do objeto, deve-se suspender o mundo natural, colocando entre parênteses todas as crenças e proposições relativas ao objeto e aos dados da realidade. Isso quer dizer que o método procede a uma abstenção de juízos. Essa atitude consiste em reconsiderar todos os conteúdos da consciência, da cognição, não interessando avaliar se são reais ou não, se são ideais ou imaginários. “Portanto, a fenomenologia nada pressupõe: nem o mundo natural, nem o senso comum, nem as proposições da ciência, nem as experiências psíquicas. Coloca-se antes de toda crença e de todo julgamento para explorar simplesmente o dado” (MORA, 1996, p. 292).

A descrição acima reflete a Fenomenologia como um método de redução eidética, no qual busca-se as “unidades ideias significativas”, ou “unidades de sentido” ou ainda “objetos sentidos”. Husserl concebeu o método de redução eidética como uma ciência das essências e, portanto, como fundamento para todas as demais ciências.

PARA SABER

Eidética (al. eidetisch, do gr. eidetikós: que concerne ao conhecimento).
  1. Termo de utilização recente, notadamente na fenomenologia de Husserl, para caracterizar aquilo que se refere às essências, em oposição ao suporte fatual que depende de outras ciências. A fenomenologia não deve preocupar-se mais com a existência dos “vividos de consciência” do que a geometria com a existência das figuras traçadas no quadro. “A geometria e a fenomenologia, enquanto ciências de essência, não comportam nenhuma contestação referente à existência mundana” (Husserl). Assim, por oposição às coisas mesmas, a eidética é a “ciência” das formas das coisas no espírito.
  2. Ciências eidéticas são aquelas que tomam por objeto as relações entre as essências ideais, como a lógica e a geometria. É a intuição eidética que nos permite apreender as essências. A redução eidética consiste em passar do fenômeno empírico ou existencial à sua essência.
  JAPIASSÚ Hilton, MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Mora (1996) nos relembra que é pertinente mencionar que, em uma perspectiva mais geral, a Fenomenologia pode também ser entendida como um movimento no qual muitos autores, de Heidegger e Paul Ricoeur, contribuíram para reelaborar, modificar e alguns casos superar a fenomenologia husserliana.

Antes de procedermos à exposição de alguns elementos do pensamento de Martin Heidegger e Jean Paul Sartre, em linhas gerais, indicamos os princípios que compõem os temas e argumentos presentes na Filosofia Existencial:

  1. A existência precede a essência;
  2. Rejeição de qualquer determinação externa de moralidade, valor e crença;
  3. Ênfase na experiência vivida;
  4. Temas existenciais fundamentais: liberdade, finitude, autenticidade e responsabilidade, disposições (angústia, náusea, tédio);
  5. Toda percepção é uma interpretação, um objeto nunca é puro em si.

A ANALÍTICA EXISTÊNCIAL DE MARTIN HEIDEGGER (1889-1976)

Figura 19

Fonte:

Para Martin Heidegger, o problema filosófico mais fundamental seria a questão do ser. Tema que, segundo ele, foi ignorado por toda uma tradição filosófica que apenas postulou a presença das coisas como realidade última, preocupada que estava em responder “o que é”. Ao contrário, conforme indica Reynolds (2014), esse filósofo, em sua ontologia fundamental, esteve interessado no ser.

Assim, a problematização e o significado do ser seriam os questionamentos filosóficos mais urgentes e encontram justificativa à medida que se verifica uma tensão entre a compreensão vivida do ser e a explicação da filosofia tradicional sobre o significado do ser.

Para substituir a antisubjetividade da essência, em que a essência precederia a existência, na obra “Ser e Tempo” (1927), o filósofo emprega o termo “Dasein”, traduzido como “ser aí”. A ideia de Dasein é o que mais representa o pensamento existencial de Heidegger, pois é por meio dele que seria possível ter acesso à análise do ser.

PARA SABER

Dasein (al.: existência, ser-aí): Termo heideggeriano que significa realidade humana, ente humano, ao qual somente o ser pode abrir-se. Por ser ambíguo e correr o risco de abrir uma brecha para o humanismo, Heidegger prefere utilizar a expressão “serie”. Na linguagem corrente, Dasein refere-se à existência humana. Contudo, Heidegger procura pensar o que separa o homem dos outros entes. Enquanto os entes são fechados em seu universo circundante, o homem está, graças à linguagem, no lugar onde surge o ser. Assim, o Dasein é o ser do existente humano enquanto existência singular e concreta: “A essência do serie (Dasein) reside em sua existência (Existenz), isto é, no fato de ultrapassar, de transcender, de ser originariamente ser-no-mundo”.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Dasein, como termo específico que distingue o ser, é utilizado para assinalar a distinção entre o humano e o não humano. Seu significado particular indica o ser que está envolvido com seu próprio ser, colocando sua própria existência em questão. O dasein seria um termo de abertura, do lançar-se às possibilidades. Trata-se de uma existência que está fora da imersão do mundo e não tem essência nem natureza predeterminada.

Para Heidegger, segundo análise de Reynolds (2014), o dasein tem a característica peculiar de também possuir a propriedade do não-ser. Heidegger argumenta que a metafísica, na tradição filosófica ocidental, buscou estabelecer a realidade para além das aparências, assumindo uma metafísica da presença. Como consequência, ignorou a possibilidade de ausência do ser, ou seja, o não-ser.

O dasein tem ainda a propriedade de denotar uma especificidade e individualidade, porém sem um sentido duradouro ou permanente. A estrutura do dasein alude à ideia do ser-no-mundo, pois todo ser estaria no mundo e seria inseparável dele. “Ser-no-mundo”, na análise de Heidegger, relaciona-se com o habitar o mundo, distinguindo-se de uma mera localização. Implica em manusear as coisas e envolver-se na prática da experiência vivida e concreta, distanciando-se de uma cognição meramente teórica.

Outras características do Dasein, conforme Reynolds (2014), são:

 

  1. Disposição (ou estado de ânimo): são fundamentos do dasein e referem-se às paixões e desejos, que também são condições necessárias para a razão e o conhecimento. Incluem disposições opressivas da existência, como ansiedade, culpa, tédio e medo. Em geral, estão atreladas ao passado.
  2. Compreensão: refere-se ao dasein voltado para o futuro e abrange uma liberdade possível. Trata do reconhecimento e projeção de possibilidades e potencialidades. A compreensão da busca por possibilidades é sempre incerta sobre o caminho e o destino almejado.
  3. Discurso e decadência: refletem a necessidade de não realizar uma análise negativa da vida inautêntica, já que essa dimensão também faz parte do ser. Decadência é a tendência de individualidade e singularidade se perderem ou serem reabsorvidas no anonimato da vida ordinária, bem como o modo pelo qual o dasein inevitavelmente foge de sua finitude e encobre o ser-lançado.

A LIBERDADE E A EXISTENCIA DO OUTRO EM JEAN PAUL SARTRE

Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo e professor que marcou intensamente o século XX. Também foi ensaísta e dramaturgo, escrevendo peças para o teatro, dentre as quais a mais conhecida é “Entre Quatro Paredes” (1943), que trouxe a célebre frase “o inferno são os outros”. Teve uma extensa produção filosófica e foi um intelectual engajado em causas sociais e políticas. Foi indicado ao Nobel de Literatura em 1964, porém o recusou. Em 1980, mais de 100 mil pessoas acompanharam seu cortejo pelas ruas de Paris. Segundo Reynolds (2014), isso evidencia a magnitude que o existencialismo assumiu após a Segunda Guerra Mundial na Europa, tanto na sociedade acadêmica quanto para o público em geral.

Os pesquisadores e comentadores do existencialismo e da Filosofia da Existência veem em Sartre um cânone, seja por ele ter-se autoproclamado um existencialista, seja pelo vigor com o qual defendeu que a existência humana precede a qualquer essência.

Os humanos não têm essência, aspecto característico dos animais e objetos. Nos humanos, como a existência não está pré-determinada, é pela vida em curso que a essência se constitui (REYNOLDS, 2014). Como não há uma essência da existência humana, seu único fundamento seria a liberdade de compor-se no transcorrer da vida. O único destino humano, para Sartre, é a “condenação de ser livre”. Ainda que haja o que Sartre denomina de “faticidade”, referindo-se ao conjunto de circunstâncias físicas e sociais nas quais se está inserido, a liberdade permanece, pois esses aspectos são o contexto para o exercício da liberdade.

A radicalidade da liberdade humana implica uma responsabilidade absoluta. Reynolds (2014), ao comentar “O Ser e o Nada”, sintetiza que esse reconhecimento mútuo entre liberdade e responsabilidade pode gerar a experiência de angústia. Assim como Kierkegaard e Heidegger, Sartre diferencia a angústia do medo. O medo relaciona-se à identificação de um perigo externo, enquanto a angústia surge da necessidade de responder às situações, porque trata-se de uma compreensão reflexiva da liberdade humana.

A prova fenomenológica do outro

 Uma dimensão do pensamento sartreano sobre a existência aponta que não podemos conhecer ou acessar o outro diretamente. Isso se dá porque estamos sempre em relação ao outro, pautados pelos projetos e finalidades que temos em relação a esse outro. Como então reconhecer a existência do outro? A fenomenologia, por si só, não soube responder. Esse é um dos questionamentos que Sartre faz em “O Ser e o Nada” (REYNOLDS, 2014).

Reynolds (2014) extrai da obra sartreana citada uma síntese que nos ajuda a entender essa problemática. Sartre propõe que a questão requer uma prova fenomenológica do outro, examinando os três principais modos pelos quais percebemos a existência do outro.

Os três tipos de relações com o outro são:

 

  1. O outro pode ser um objeto do qual se apropria e usa-se como instrumento para um propósito específico. Nesse tipo de relação, não se percebe a existência concreta do outro, pois ele é tratado como objeto. Exemplo: entrar em uma loja e perguntar o preço de um produto.
  2. O outro pode influenciar a forma como percebemos objetos e situações, alterando nossa própria perspectiva. Nesse contexto, a presença do outro muda o ambiente e reorienta a percepção inicial que se tem de si mesmo, do espaço e do outro. Exemplo: estar sozinho em um parque ou sala e perceber a chegada de alguém.
  3. Esse modo de relação primária ou original refere-se ao olhar do outro, um olhar que pode julgar. Aqui, mesmo que permeada por uma experiência alienante, experimenta-se a objetividade do ser, no sentido de ser-para-o-outro.

 

O princípio norteador dos pontos a e b da prova fenomenológica do outro argumenta que, se a experiência de existir é afetada pela presença do outro, é porque o outro existe. Assim, poder-se-ia afirmar a existência do outro pela influência deste na nossa experiência de existir.

INIDACAÇÃO DE VÍDEO

Assista, nesse vídeo, imagens do Funeral de Sartre em Paris, 1980.

https://www.youtube.com/
watch?v=Fe91KVvGG2I

Ainda que a ênfase ao subjetivismo ou individualismo esteja presente no existencialismo, este não pode ser atrelado à ideia liberal e capitalista de livre escolha. Isso porque a liberdade, no existencialismo, é uma liberdade radical que faz exigências também radicais no âmbito da responsabilidade. O existencialismo pode ser um recurso filosófico, uma forma de interpretar e questionar as muitas “ofertas” em campos variados que nos são disponíveis e que demandam posicionamentos de liberdade e responsabilidade. Em outubro de 1945, Jean-Paul Sartre proferiu uma conferência nomeada por ele como “O Existencialismo é um Humanismo”. Em linguagem coloquial e mais acessível, a fala tem a intenção de responder às críticas e esforça-se por apresentar a coerência de sua filosofia.

A seguir, são apresentados alguns fragmentos da conferência para que se conheça de forma mais sintética, ainda que em panorama, o pensamento do filósofo expresso por ele mesmo.

“(…) Que significa, aqui, que a existência precede a essência? Significa que o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em seguida. Se o homem na concepção do existencialismo não é definível, é porque ele é, incialmente, nada. Ele apenas será alguma coisa posteriormente, e será aquilo que ele se tornar.”

“(…) Mas se realmente a essência aprece a existência o homem é responsável pelo que é. assim, a primeira decorrência do existencialismo é colocar todo homem em posse daquilo que ele é, e fazer repousar sobre ele a responsabilidade por sua existência.”

“(…) O existencialista costuma declarar que o homem é angústia, isso significa o seguinte: o homem que se engaja e dá conta de que ela não é apenas o que escolha e ser, mas também é um legislador que escolhe o mesmo tempo o que será a humanidade inteira, não poderia furtar-se do sentimento de sua total e profunda responsabilidade.”

“(…) É essa espécie de angústia, que é a que descreve o existencialismo, veremos que ela se explica, além disso, por sua responsabilidade direta em relação aos outros homens envolvidos pela escolha.”

“(…) Dito de outra forma, o sentimento se constrói pelas ações que realizamos, não posso, portanto, consultá-lo para me guiar por ele. Isso quer dizer que não posso nem buscar em mim mesmo o estado autêntico que me impulsionará a ação, me procurar em uma moral os conceitos que me permitirão agir.”

“(…) o quietismo é a atitude daqueles que dizem: “os outros podem fazer aquilo que eu não posso”. A doutrina que lhes apresento é exatamente o contrário do quietismo, pois ela afirma: “só existe realidade na ação, e ela vai mais longe acrescentando: “o homem não é nada mais que seu projeto, ele não existe se não na medida que se realiza e, portanto, não é outra coisa senão o conjunto de seus atos, nada mais além de sua vida.”

“(…) está é a única teoria a atribuir uma dignidade ao homem, e a única que não o considera um objeto.”

“(…) Além disso, embora seja impossível encontrar em cada homem uma essência universal que seria a natureza humana, existe, no entanto, uma universalidade humana de condição.”

“(…) temos que encarar as coisas como elas são. E, além disso, dizer que nós determinamos os valores não significa outra coisa senão que a vida não tem sentido, a priori. Antes de começarmos a viver, a vida, em si, não é nada, mas nos cabe dar-lhe sentido, e o valor da vida não é outra coisa senão o sentido que escolhemos.”

“(…) o existencialista nunca tomará o homem como um fim, pois ele sempre está por fazer-se. E não devemos em uma humanidade a ser cultuada, à maneira de Augusto Comte. O culto à humanidade culmina no humanismo fechado sobre si mesmo de Comte e, devemos dizer no fascismo. Trata se de um humanismo que não desejamos. Existe, no entanto, um outro sentido para o humanismo, que significa, no fundo o seguinte: o homem está constantemente fora de si mesmo, é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz o homem existir e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele é capaz de existir (…) Essa ligação de transcendência, como constitutiva do homem – não no sentido em que Deus é transcendente, mas no sentido de sua superação – e da subjetividade, no sentido em que o homem não se encontra encerrado nele mesmo, mas sempre presente num universo humano, é o que denominamos de humanismo existencialista ”

O existencialismo é um humanismo, Jean Paul Sartre, 1945.

LEITURA COMPLEMENTAR

Para finalizar esta unidade de ensino, leia a bibliografia complementar que indicamos e que apresenta a Fenomenologia existencial como caminho para pesquisa qualitativa em psicologia.

http://dx.doi.org/10.26823/
RevistadoNUFEN
.vol09.n03artigo17

RESUMO DA UNIDADE

Nesta Unidade de Ensino, conhecemos as principais características do Renascimento como período histórico e suas expressões na cultura; compreendemos o desenvolvimento de uma Filosofia Humanista nos séculos XV e XVI e conhecemos os princípios da Filosofia Existencial de Heidegger e Sartre no contexto da Filosofia Contemporânea.

REFERÊNCIAS

  • BARROS, J. D. (2021). O humanismo e suas origens pre renascentistas. Historie12(1), 250–260. Recuperado de https://periodicos.furg.br/hist/article/view/
    11876
  • CERBONE, David R. Fenomenologia. 3 Ed. Vozes. Petrópolis. 2014.
  • Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática. São Paulo. 2000.
  • GHIRALDELLI, Paulo. A Aventura da Filosofia: de Parmênides a Nietzsche. Editora Manole, 2010. E-book. ISBN 9788520443408. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/
    books/9788520443408/
  • JAPIASSÚ, Hilton, MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3 ediçao. Jorge Zahar. Rio de Janeiro. 2001.
  • SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. 4 edição. Petrópolis. Vozes. 2014.
  • MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia. Dos Pré-Socráticos à Wittgenstein. 13 edição. Zahar. Rio de Janeiro. 2008.
  • MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. 2 Ed. Martins Fontes, São Paulo. 1996.
  • REYNOLDS, Jack. Existencialismo. 2 Ed. Vozes. Petrópolis. 2014.
  • RIBEIRO, E. V. (2022). Uma breve narrativa sobre o humanismo. Sapere Aude13(25), 10-21. https://doi.org/10.5752/P.2177-6342.2022v13n25p10-21
  • ROOS, Jonas. 10 Lições sobre Kierkegaard; 2 Ed. Vozes. Petrópolis. 2022.
  • VAZ, Henrique C. de Lima. Antropologia Filosófica I. 4 edição. Edições Loyola. São Paulo. 1998.
  • Todas as imagens não indicadas as fontes estão em: https://br.freepik.com
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